sábado, 3 de dezembro de 2016

O fantasma do CETA

1. Dois deputados do BE pediram ao Governo a sua reação a um pedido de indemnização feito ao Estado português por causa da reversão da concessão da Carris e do Metro de Lisboa, por parte da empresa mexicana que tinha ganho a concessão.
Os referidos deputados alertam para o facto de esse litígio ir ser decido por um tribunal arbitral internacional ad hoc (ao abrigo do acordo de investimento entre Portugal e o México) e acrescentam que o CETA (o acordo de comércio e investimento entre a UE e o Canadá), em vias de ratificação, vai estabelecer o mesmo mecanismo arbitral de resolução de conflitos, com o perigo de multiplicação de pedidos de indemnização à margem dos tribunais nacionais.

2. Sucede, porém, que a referida pergunta contém alegações e assenta em suposições sem o devido fundamento factual ou jurídico. Assim:
    - nos termos do direito civil e administrativo, a responsabilidade civil inclui obviamente a indemnização dos "lucros cessantes" em caso de quebra de um contrato, não sendo esse espeto nenhuma inovação dos contratos de investimento estrangeiro, pelo que qualquer tribunal administrativo nacional teria de conferir a indemnização de tais danos;
   - por via de regra, os contratos entre o Estado e investidores privados (concessões, empreitadas, parcerias público-privadas, etc.), sejam nacionais ou estrangeiros, incluem uma "cláusula arbitral", pelo que não se trata de nenhuma inovação dos litígios internacionais de IDE;
  - ao contrário do que se diz na referida pergunta parlamentar, o CETA não já inclui o ISDS arbitral, tendo este mecanismo de resolução de litígios sido substituído pelo "sistema de tribunais de investimento" (ICS, na sigla inglesa), passando a ser da competência de tribunais mistos bilaterais permanentes (UE-Canadá), dotados de independência;

3. As razões para a adoção de mecanismos externos de resolução desses litígios, em vez dos tribunais nacionais, tem a ver sobretudo com os seguintes fatores:
   - estar em causa a aplicação de princípios e de convenções internacionais de IDE, matéria em que os tribunais nacionais não possuem a necessária formação e experiência;
  - a tradicional demora dos processos e recursos nos tribunais nacionais, que podem durar anos, o que se não compadece com a exigência de celeridade na resolução destes litígios de elevado valor.
Acresce que, desde o Tratado de Lisboa, a regulação de IDE passou a ser uma competência da União, pelo que os litígios podem envolvê-la como litigante ou colitigante (junto com os Estados-membros); por isso, esses litígios devem se decididos ao nível da União e não dos Estados-membros.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Nem tudo vai mal

Lentamente, a União Europeia vai recuperando da crise financeira e orçamental de 2008-2011 no que respeita à retoma económica, à consolidação orçamental, à estabilidade financeira, etc. Até a Grécia está a sair da situação de emergência.
Nesse sentido, pela primeira vez desde 2011, a taxa média de desemprego na União desceu abaixo dos 10%, o que, apesar da grande assimetria entre os vários países (uns abaixo dos 5% e outros acima dos 20%), não deixa de ser uma boa notícia. Portugal, ainda que pior do que a média da União, contribui para essa descida.
Obviamente, os sobressaltos na frente política (crise dos refugiados, Brexit, referendo na Holanda sobre o acordo comercial com a Ucrânia, possível vitória populista nas eleições presidenciais austríacas e no referendo italiano, ameaça do nacionalismo em vários outros países, etc.) não permite otimismo nenhum quanto à saída definitiva da crise. Infelizmente,  há outras razões de preocupação, além do desemprego (terrorismo, imigração, corrupção, desigualdade social, etc.). Mas mesmo os motivos de preocupação política seriam bem mais graves se a situação económica, social e financeira não estivesse a melhorar.

Adenda
É fácil notar que, salvo a Croácia, todos os países com desemprego maior do que a média da União são do sul da Europa, tendo sido todos eles especialmente afetados pela crise orçamental. Já a Irlanda, um dos três países "resgatados", deixou a crise bem para para trás em todos os aspetos. Decididamente, há países mais ágeis do que outros a enfrentar e vencer as crises...

Correção

Ao nomear um presidente do conselho de administração (chairman) e um diretor executivo (CEO) para a nova gestão da CGD, o Governo corrigiu um erro que cometera na administração anterior - concentrando essas duas funções numa única pessoa - , que fui o primeiro a assinalar e que depois o BCE reiterou.
Esperemos que desta vez não se repitam os demais percalços que atrasaram o processo de recapitalização do banco público e depois levaram à demissão da anterior equipa de gestão. A recuperação da Caixa e a estabilidade do sistema financeiro português bem precisam.

Mais uma reversão?

Segundo a imprensa, a próxima página do caderno reivindicativo do BE e do PCP face ao Governo do PS pode bem vir a ser a reversão das alterações ao Código do Trabalho, nomeadamente em matéria de contratação coletiva e de indemnização por despedimento.
Compreende-se esta iniciativa da extrema-esquerda parlamentar, face à perda de apoio nas sondagens eleitorais, não somente por razões ideológicas mas também para marcar terreno político, tendo em conta as eleições autárquicas do próximo ano e a negociação do próximo orçamento, uma vez concluído o processo de "recuperação de rendimentos". Mas o Governo revelaria um grande imprudência política se lhe desse seguimento, pois parece evidente que o atual dinamismo do mercado de trabalho e da criação de emprego, num contexto pouco propício de contínua quebra do investimento e de sofrível crescimento económico, se deve muito à moderada flexibilização das relações laborais conseguida com a revisão da legislação laboral.
O regresso ao passado desequilibraria o atual compromisso entre a proteção dos direitos dos trabalhadores e o incentivo à criação de emprego, sacrificando o segundo. Quem já tem emprego poderia ganhar mais direitos, mas quem o não tem passaria a ter mais dificuldades em obtê-lo...

Cila e Caribdis

1. Todas as sondagens sobre o referendo constitucional italiano no próximo dia 4 indicam que o primeiro-ministro Renzi vai sofrer uma pesada derrota política.
Se tal se verificar, confirmam-se mais uma vez dois riscos dos referendos. Primeiro, quando versam sobre temas complexos, eles são decididos com baixo conhecimento geral sobre as questões colocadas à decisão popular (calcula-se que só um entre 10 italianos conhece com algum rigor o que está em causa); segundo, há a tendência para os cidadãos votarem em questões políticas diferentes das que estão a votos, tornando os referendos em plebiscitos contra o governo em funções, independentemente do mérito das questões submetidas a referendo.

2. Não é a primeira vez que exprimo as minhas objecções contra referendos sobre questões complexas, que não são suscetíveis de uma opção "sim" ou "não", ou a referendos realizados em situações de instabilidade política ou social, em que a paixão política conjuntural tende a primar sobre a razão.
Mas depois do Brexit e do referendo italiano, é de sublinhar que o referendo constitui uma derrogação da democracia representativa, que devia ser excecional, não podendo tornar-se num instrumento de fuga dos governos e dos parlamentos às suas responsabilidades políticas nem, muito menos, de triunfo de populismos conjunturais.

3. A confirmar-se a derrota do referendo, ela redunda numa vitória da direita berlusconiana e da Liga Norte e da pseudo-esquerda populista do movimento "5 estrelas", podendo abrir uma caixa de Pandora política em Itália e, por extensão, na UE.
Cumprindo a sua imprudente ameaça, Renzi pode ser tentado a demitir-se, abrindo uma crise política. Mesmo que o não faça, as condições de governo vão deteriorar-se, até por causa das divisões na maioria de centro-esquerda, com consequências negativas sobre a situação económica e a estabilidade política e financeira do País.
Entre Cila e Caribdis, entre o populismo de direita e o de esquerda, como evitar um naufrágio político em Roma?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Ganhar, perdendo

É sabido que Donald Trump foi eleito Presidente dos Estados Unidos apesar de ter tido dois milhões de votos populares a menos do que Hillary Clinton. Não é a primeira vez que isso sucede, pois o mesmo ocorreu com a vitória de Bush em 2000, com menos votos do que Gore.
Porquê esta discrepância, pouco conforme à lógica da democracia representativa? Ao contrário do que se tem lido, isso não tem propriamente a ver com a eleição indireta do Presidente, através de um colégio eleitoral, nem com o facto de os membros desse colégio serem eleitos ao nível dos estados da União, em homenagem à estrutura federal dos Estados Unidos.
Há duas razões substantivas para essa assimetria política entre a maioria de votos dos eleitores e a maioria dos delegados no colégio eleitoral. A primeira decorre do facto de a representação dos estados no colégio eleitoral não ser proporcional à respetiva população, com vantagem para os estados mais pequenos. A segunda razão, e mais importante, decorre do facto de a eleição dos delegados em quase todos os estados ser feita por maioria, e não pelo método proporcional, pelo que o candidato presidencial que tiver mais um voto num estado "leva" todos os delegados desse estado.
Não fossem esses dois fatores muito pouco democráticos do sistema eleitoral, especialmente o segundo, o colégio eleitoral seria tendencialmente um espelho político do voto dos eleitores a nível nacional (como acontece com a nossa AR, que é eleita em círculos distritais) e Hillary Clinton seria Presidente dos Estados Unidos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Transição política em Cuba?

1. Qualquer que seja o juízo sobre Fidel Castro, entre o herói para uns e o tirano para outros, parece evidente que o seu desaparecimento pode facilitar a transição para um regime de maior liberdade económica e política em Cuba, que ele não via com bons olhos. De facto, mesmo se retirado, ele permanecia como garante da continuidade da revolução e do comunismo cubano, limitando a margem de evolução endógena do regime.
Se essa transformação ocorrer - aliás, já iniciada na área económica -, resta saber se Cuba pode tentar replicar a experiência "esquizofrénica" da China e do Vietnam - de transição para o capitalismo na esfera económica sem transição para uma democracia liberal na esfera política - ou se vai passar num prazo mais ou menos curto por um processo de liberalização tanto económica como política.

2. Como parece evidente, as ameaças de Trump de voltar atrás no acordo concluído por Obama podem ter um efeito contraproducente, ajudando as forças conservadoras em Cuba. Pelo contrário, a melhor ajuda de Washington à transição política em Cuba seria a de levantar o injustificável embargo comercial - que tantos razões deu a Havana para estimular os sentimentos anti-americanos e unir os cubanos à volta do regime  - e abrir as relações económicas, turísticas e culturais com a ilha.
Neste provável processo de transição a União Europeia tem um papel insubstituível, na medida em que não adotou a agenda norte-americana de isolamento internacional de Havana, tendo centrado o seu empenho na defesa dos direitos humanos e, através deles, na criação de condições para a transição política em Cuba. Não é altura agora de Bruxelas e os Estados-membros se desinteressarem da desejável transição democrática em Cuba, nem de deixarem os seus créditos por mãos alheias, nomeadamente as de Washington

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Ai, a dívida!

Segundo este números, a dívida pública bruta cresceu no últimos doze meses mais de 37 milhões de euros por dia, o maior aumento diário desde 2012, no pico da crise e do programa de assistência externa.
Mesmo admitindo que a dívida líquida tenha crescido a um ritmo um pouco menor (dado o aumento de depósitos, por razões de segurança), ainda assim são números pouco tranquilizadores.
Em vez de aumentarem, as necessidades de financiamento da despesa pública por dívida deveriam estar a diminuir.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A vaga

Ao vencer de forma concludente as "primárias" da direita francesa para a candidatura presidencial do próximo ano, F. Fillon deve ter aberto desde já o caminho para o Eliseu, dado que a esquerda não se apresenta com hipóteses para lhe fazer frente (depois da enorme deceção de Hollande), podendo ficar afastada logo na primeira volta, e que Fillon tem, como "gaullista de direita" que se autoqualifica, boas condições para vencer Marine le Pen, no provável duelo da segunda volta, acantonando-a no voto da extrema direita e beneficiando tendencialmente do apoio da maioria do eleitorado.
Entre a extrema-direita xenófoba e anti-europeia e a direita conservadora, do mal o menos - se fosse francês, não teria dúvidas na opção -, mas a vitória de Fillon, anunciada a esta distância, marca mais um degrau da atual vaga política da direita na Europa e fora dela.

Adenda
Há, todavia, o risco de entre uma direita liberal-conservadora e uma extrema-direita nacionalista e protecionista a esquerda preferir a segunda. Na verdade, quando ouve a palavra "liberal", a esquerda francesa puxa da pistola. Não é segredo que o voto operário, que antes era a base eleitoral do PCF, está hoje maioritariamente com Le Pen!

Funambulismo político

1. O desastrado processo de nomeação da nova administração da CGD (como aqui se mostrou) terminou da pior forma (como aqui se antecipou), com a demissão de António Domingues, adiando a resolução da questão institucional da Caixa e a implementação do seu plano de recapitalização e aprofundando a incerteza em relação ao banco público.
Tendo feito questão de ser contratado na sua qualidade estritamente profissional, rejeitando o estatuto de "gestor público" e qualquer equiparação a titular de cargo político - o que foi aceite e lhe foi assegurado pelo Governo -, o gestor sentiu-se injustamente desfeiteado quando na semana passada o Parlamento, com os votos do direita e do Bloco e a aparente conformação do PS, aprovou uma norma ad hominem impondo explicitamente a obrigação de apresentação de património e de rendimentos, não fosse o Tribunal Constitucional vir a considerar que os gestores da Caixa estão isentos, por não serem agora legalmente considerados como gestores públicos.

2. Se a posição da direita se compreende em termos de lógica oposicionista, explorando ao máximo a fragilidade do Governo neste dossiê, já o mesmo não vale para o BE, que pertence à maioria parlamentar de apoio ao Governo e gosta de reivindicar para si os seus louros. O PSD deve ao Bloco a sua primeira vitória parlamentar ao fim de um ano do Governo!
Decididamente, ao juntar-se à direita para assestar um golpe político no Governo que apoia, lembrando-lhe da pior forma que é minoritário sem o seu apoio, o Bloco revelou que não é confiável como partido da maioria parlamentar. É uma situação inédita que não pode não deixar marcas. Uma coisa é não apoiar todas as iniciativas do Governo, outra coisa, bem diferente, é juntar-se irresponsavelmente à oposição para derrotar o Governo...

Adenda
Com a decisão de entregar a declaração de património e de rendimentos, a administração demissionária da Caixa mostra que não estava em causa um capricho para esconder essa informação mas sim o seu direito de fazer cumprir o acordo, que o Governo não respeitou, relativo à sua contratação em termos estritamente profissionais, sem equiparação a gestores públicos e a titulares de cargos políticos. Uma "bofetada de luva branca"...

Adenda 2 (30/11)
Como era de recear, a triste novela política da Caixa tem impacto negativo no seu rating e, consequentemente, nos seus custos de financiamento.

Dor de cabeça


1. Os resultados da sondagem eleitoral publicada no fim de semana passado não podiam ser melhores para o PS, com 43% (a dois pp da maioria absoluta), nem piores para a oposição do PSD e do CDS, cuja soma  (36%) fica muito abaixo dos socialistas.
Mas é caso para dizer que os resultados são demasiado bons para o PS, pois metade da sua subida é feita à custa dos parceiros da protocoligação parlamentar, o BE e o PCP, que perdem mais de 2 pp cada um em relação às eleições de há um ano. Ou seja, os louros políticos do desempenho governamental vão para o PS à custa dos seus parceiros de coligação parlamentar, apesar dos esforços destes para reclamarem para si os méritos das medidas favoráveis, o que não pode deixar de criar algum ressentimento político.

2. O caso é mais grave para o PCP, que desce para um nível preocupantemente baixo (6%) - inferior ao de todas as eleições legislativas até agora - e que pode ver nestes resultados o risco de um processo de definhamento como o que atingiu o PC francês no seguimento da sua entrada em governos liderados pelos socialistas há algumas décadas.
É evidente que o PC não vai precipitar uma crise de Governo a curto prazo, mas não é improvável que o próximo congresso do Partido dê eco ao descontentamento político que esta descida de apoio eleitoral necessariamente suscita e que, para apaziguar a inquietação interna, venha a aprovar um caderno reivindicativo tão exigente que o Governo dificilmente possa cumprir.
Eis como uma sondagem demasiado favorável pode causar uma dor de cabeça.

domingo, 27 de novembro de 2016

Infiel a Fidel

Fidel Castro foi personagem marcante do século XX. Mas nem sempre pela positiva.

Começou bem. Foi o "El Comandante" da revolução contra a colonização de Cuba pelo imperialismo americano que sustentava a ditadura corrupta de Fulgêncio Batista - que, não por acaso, se exilou na ditadura em Portugal, na Madeira. A descida da Sierra Maestra e a entrada gloriosa em Havana em 1959 despertariam a mitologia da revolução cubana: quem da minha geração não teve posters na parede com o Che de boina e estrela? 

A revolução trouxe esperança e admiráveis progressos na saúde e na educação, acessíveis a todos em Cuba - e bem exportados, como atestam os médicos cubanos e timorenses formados em Cuba que cuidam do povo em Timor-Leste. As exportações militares foram politicamente mais questionáveis, por justificadas que fossem na luta contra o colonialismo, da Guiné-Bissau (e eu não me arrependo de ter andado pela ruas de Lisboa a gritar pela libertação do cubano Capitão Peralta nos idos de 74...) a Angola, onde os militares cubanos foram decisivos em arrumar a África do Sul. Angola, onde Fidel, hábil cavalgador do Movimento dos Não Alinhados, arrumou também a tentativa de hegemonia soviética, apoiando Agostinho Neto contra Nito Alves...

Mas há um reverso trágico, pela intolerância de Fidel aos que tinha por infiéis, por teimarem em exercer direitos e liberdades fundamentais e divergir e criticar o regime. E pela penúria, a pobreza indigna que fez emigrar milhões de cubanos e que não resultou apenas do embargo com que retaliaram os Estados Unidos. O embargo forneceu, de facto, um alibi para os sacrifícios e a repressão que o despotismo de Fidel impôs ao povo cubano: no fundo, a América que defendeu o embargo foi a melhor aliada da ditadura em Cuba.

Com o afastamento de Fidel Castro do poder executivo por doença (formalmente em 2006), a mudança começou em Cuba. Tinha de ser, porque entretanto ruira o outro sustentáculo da ditadura cubana: o apoio económico da União Soviética. O vislumbre de abertura explica a visita do Presidente Obama a Cuba há dois anos: veremos se se vai acelerar agora, não obstante ou com a "ajuda" dos extremistas em torno de Trump...

Não me arrependo, como Secretária Internacional do PS em 2003, de ter publicado um comunicado em nome do Partido a condenar as execuções de dissidentes pelo regime castrista: os socialistas democráticos não podem calar perante a perversão política e ideológica que toda e qualquer ditadura implica.

Muitos respirarão hoje com mais esperança em Cuba, tantos certamente quanto choram Fidel, mas a maioria dos mais jovens fica indiferente: só anseia por emigrar. 

Em Portugal irrita que sobretudo se discuta o carisma de Fidel: como se o carisma dispense de avaliar se foi posto ao serviço do bem ou do mal. 

Eu não choro Fidel. Presto tributo ao revolucionário, a El Comandante da Sierra Maestra. Mas constato que ontem se apagou mais um tirano.

sábado, 26 de novembro de 2016

Em causa própria

1. O congelamento dos limites das "propinas" (taxas) no ensino superior no Orçamento para 2017 - derrogando a lei de atualização em vigor - não se limita a reduzir os recursos próprios das universidades e politécnicos, diminuindo assim a sua capacidade operacional e a sua autonomia financeira face ao Estado. Também é socialmente injustificada.
Primeiro, descontadas as suas "externalidades" sociais positivas, o ensino superior é antes de mais um investimento individual, em vista de melhores empregos e atividades profissionais e de melhores remunerações, pelo que não faz sentido que benefícios individuais sejam financiados por toda a coletividade; segundo, o ensino superior não é nem nunca será um serviço universal, dados os requisitos intelectuais requeridos, pelo que é injusto que aqueles que não podem chegar ao ensino superior financiem quem tem condições e meios para o fazer, mediante impostos pagos por todos.

2. O financiamento do ensino superior deveria fundar-se por isso na regra beneficiário-pagador e não num subsídio público generalizado, cego à capacidade económica dos beneficiários.
Cumpre naturalmente ao Estado financiar individualmente o acesso ao ensino superior dos estudantes de menores rendimentos, de modo a assegurar o princípio constitucional da igualdade de oportunidades. Mas isso não deve ser alcançado por propinas baixas para todos (incluindo os muitos que podem e devem pagar propinas mais elevadas), mas sim através de bolsas de estudo em número e valor apropriado.
Sucede que, por óbvias razões de interesse próprio, as juventudes partidárias, especialmente as dos partidos de esquerda, militam desde sempre contra as propinas (sendo de recordar a campanha do "não pagamos" nos anos 80 do século passado). Só é de lamentar que os seus interesses pessoais tenham sido coonestados como suposto interesse geral.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

XIX Curso de Pós-graduação em Direitos Humanos


Mais informações no site do Ius Gentium Conimbrigae / Centro de Direitos Humanos, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC).

Facilitismo

Suscita-me as maiores reservas a ideia de integrar os chamados "precários" na função pública.
Por duas razões: primeiro, não faz sentido que o Estado esteja a implementar um plano de redução do pessoal da função pública (sobretudo para reduzir a despesa pública) e depois faça entrar ad hoc uma quantidade indefinida de novos funcionários, inexistindo uma necessidade imperiosa dos serviços públicos; segundo, e sobretudo, esses novos funcionários vão entrar à margem dos procedimentos constitucionais e legais de acesso, nomeadamente o concurso público, violando por isso um elementar e imperativo princípio de igualdade.
Independentemente do seu custo orçamental, a admissão de mais uns milhares de funcionários por decreto, sem prova da sua necessidade e à margem das regras constitucionais que garantem a igualdade de acesso, não é propriamente recomendável como medida de esquerda.

Tempos ominosos


Este quadro retirado do The Economist - onde ilustra uma peça sobre a vaga nacionalista por esse mundo fora - mostra que, entre os países referidos (muitos deles europeus), a França é aquele que tem uma opinião maioritariamente negativa sobre a globalização, o comércio internacional e o papel dos imigrantes. Outros estudos mostram que o apelo nacionalista em França (e noutros países) é particularmente generalizado entre os trabalhadores e os aposentados, que tradicionalmente eram bases políticas da esquerda.
Desses indicadores fica a perceber-se melhor por que razão a direita nacionalista goza na França do largo apoio que hoje tem e o risco político que ela representa, especialmente tendo em conta as eleições presidenciais do próximo ano. Não menos preocupante é o facto notório de a própria esquerda francesa não fugir à tentação de cooptar também os valores nacionalistas, sobretudo em matéria de protecionismo comercial e de hostilidade à imigração.
Decididamente, os tempos não vão fagueiros para o internacionalismo liberal.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Até quando?

O Estado vais injetar mais 30 milhões de euros nos transportes coletivos do Porto, o que acresce às centenas de milhões que lá meteu desde a estatização da empresa em 1975.
Repito a pergunta que tantas vezes tenho feito, sem resposta: por que carga de água e até quando é que todos nós, contribuintes de todo o País, havemos de pagar os transportes urbanos do Porto, se já pagamos os das nossas próprias cidades!? Porque é que Lisboa e o Porto hão-de continuar a locupletar-se à custa alheia?

Adenda
Este é obviamente um custo direto da reversão da concessão dos STCP, que já tinha sido adjudicada pelo anterior Governo. Resta ainda o provável custo da indemnização à empresa concessionária por incumprimento contratual do Estado.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Amanhã vou estar aqui


Conferência sobre "Estado regulador, direitos humanos e sustentabilidade", uma iniciativa conjunta  do Centro de Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (a que presido) e da Universidade Autónoma de Lisboa.

À custa alheia

1. Sim, apraz-me verificar que uma das minhas lutas de décadas, a da remunicipalização dos transportes urbanos de Lisboa e Porto (estatizados em 1975), começa a tornar-se realidade, com a transferência da Carris para o município de Lisboa.
Mas não compartilho da
ideia de que é justo que a dívida da empresa permaneça com o Estado. Primeiro, se os ativos são transferidos, assim deveria suceder com o passivo; segundo, os 700 milhões de euros são a ponta da montanha de euros que ao logo de 40 anos o Estado (ou seja, os contribuintes de todo o País) foi injetando na Carris, em investimento e compensações de serviço público.

2. Seja como for, a Carris é somente uma parte dos indevidos encargos do Estado com os transportes locais de Lisboa e do Porto. Falta transferir igualmente o metro de Lisboa (até porque faz todo o sentido gerir integradamente os dois modos de transporte urbano) e as duas empresas de transportes urbanos do Porto.
Até quanto é que a duas principais cidades nacionais vão continuar a locupletar-se à custa do resto do país e passam a assumir integralmente, como sucede com as demais cidades, os encargos com serviços públicos de que nunca deveriam ter sido desapossadas?

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A segurança e defesa da Europa

"O relatório que hoje aprovámos sobre a União Europeia da Defesa e este, de Ioan Pascu sobre a Política Comum de Segurança e Defesa, complementam-se, face a um desafio que determinará se a União se constrói ou se deixa destruir.
É urgente repensar a defesa e segurança da Europa perante mudanças estratégicas em curso num mundo em desordem, em que "brexiters", Putin, Trump e outros tenderão a semear mais paralisia no Conselho de Segurança e a enfraquecer a NATO. 
A Europa tem de acordar e de se organizar. A Estratégia Global aprovada e um Livro Branco podem ser úteis, mas nada substitui vontade política e controlo democrático, hoje manifestamente insuficientes na maior parte dos Estados Membros. Que têm de exercer-se já sobre o compromisso para investir em investigação e tecnologia conjuntamente, em inter-operabilidade de equipamentos e forças, em financiamento comum e numa visão integrada das dimensões externa e interna, e das vertentes civis e militares, da defesa e segurança de todos nós.
 A UE tem de fazer uso das ferramentas que criou, dos Agrupamentos Tácticos às missões PCSD, apoiando os Estados Membros tanto para combater forças terroristas onde seja necessário, como na neutralização de agressões e ameaças híbridas, incluindo na ciber-seguranca de infraestruturas críticas. Tarda o estabelecimento de de um quartel-general permanente, como disse a Alta Representante Mogherini.
 A União tem de ser capaz de intervir e fazer a diferença nas crises e conflitos - muitos à porta, outros já dentro de portas - com impacto directo na segurança dos nossos cidadãos, nos nossos interesses, na defesa do Direito Internacional e na segurança global."

(Minha intervenção em debate plenário no PE sobre a aplicação da Política Comum de Segurança e Defesa)

A UE face à repressão na Turquia

"Escandalosamente, Membros do PE estão a ser impedidos de visitar colegas parlamentares turcos postos na prisão: 10 do HDP, alem de 37 presidentes de Câmara de cidades curdas e milhares de jornalistas, juízes, professores e  funcionários, alegadamente ligados ao golpe de Julho.
A UE devia alarmar-se e alertar contra o assassínio em massa possivelmente em preparação de presos que Erdogan considera ligados ao Movimento Gülen: já 20 apareceram "suicidados", certamente para esconder vestígios de tortura. E já os media pro-governamentais relatam um plano de "fuga em massa" de prisioneiros - uma conveniente desculpa para os executar.
A UE deve abandonar qualquer pretensão de que as negociações de adesão ainda são possíveis com o regime repressivo de Erdogan na sua última louca deriva de poder. Vamos antes envolver-nos e apoiar todos aqueles corajosos homens e mulheres na Turquia que lutam por democracia e direitos humanos e resistem: não podemos ser amigos de um regime que brutalmente ataca os curdos e oprime o povo turco".

(Minha intervenção em debate plenário no Parlamento Europeu, esta tarde, sobre a situação na Turquia)

Aleppo, inferno na terra

"Vergonha é o que sinto, como europeia, por voltarmos a debater a Síria se nada se ter alterado: Aleppo, inferno na terra, confronta-nos com homens, mulheres e crianças cruelmente bombardeados, e escolas, hospitais, agentes humanitários e campos de refugiados deliberadamente atacados.
 O Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos pediu restrições ao veto dos P5 perante crimes de guerra, contra a humanidade ou genocídio, para ultrapassar a paralisia do Conselho de Segurança e levar os responsáveis pela carnificina na Síria ao Tribunal Penal Internacional. Porque não ouvimos a UE a secundar este apelo, Sra. Mogherini?
 UE e Estados-Membros têm sido incapazes de atuar estrategicamente, com sanções, corredores humanitários, "no-fly zones" ou o que quer que faça alguma diferença, permitindo assim a Putin ocupar o vazio e a grupos terroristas, como o Daesh, continuarem a massacrar o povo sírio, com consequências diretas também para a segurança europeia: quando vamos perceber que se não travarmos a guerra na Síria, estamos não apenas a fabricar mais refugiados, mas também a entregar gerações perdidas ao recrutamento terrorista?"
(Minha intervenção em debate plenário no Parlamento Europeu, esta tarde, sobre a situação na Síria)

Contra o secretismo "offshore" e "onshore"

"Finalmente, depois dos escândalos Panama Papers, Bahamas Leaks, etc, Conselho e Comissão Europeia reconhecem que há ligação entre o combate à fraude e evasão fiscal e o combate ao branqueamento de capitais e financiamento de terrorismo. Contra o secretismo onshore e offshore de que vive a criminalidade, é necessária transparência no setor financeiro e empresarial, e mais sinergias e mais troca de informação entre agências de aplicação de lei, incluindo Autoridades Tributárias - o que esta proposta da Comissão vem estabelecer. 
Lamentavelmente, os Estados Membros chegaram a acordo no Conselho sem ouvir o Parlamento - mas têm se confrontar com o que recomendamos neste relatório de Emanuel Maurel.
Importa atentar nas suas propostas, que alargam o âmbito de matérias e quantidade de dados sobre os quais deve haver troca de informação e estabelece, com clareza que a troca de informação automática e obrigatória, incluindo sobre beneficiários efetivos de empresas e outras entidades legais que devem constar em registo de acesso público. Para isso estamos a trabalhar na revisão da Quarta Diretiva Anti-Branqueamento de Capitais. 
As informações em causa devem também ser disponibilizadas à Comissão, no âmbito das suas competências de aplicação das regras em matéria de auxílios estatais. É fundamental quebrar as fronteiras da  investigação da criminalidade financeira na UE: as autoridades fiscais e outras devem cooperar na realização de inquéritos transfronteiriços." 

(Minha intervenção em debate plenário no Parlamento Europeu esta manhã sobre "Acesso a informação anti-branqueamento de capitais pelas autoridades tributárias")

Já basta de carregar sobre os contribuintes do Continente!

A imprensa anuncia uma proposta do CDS para inscrever no Orçamento do Estado uma verba de quase seis milhões de euros para a primeira fase da construção do novo hospital do Funchal.
Trata-se de brincar com os contribuintes do Continente, que obviamente não têm de subsidiar o SNS regional, que é responsabilidade orçamental da Madeira. Já lhes basta terem de assegurar sozinhos a consolidação orçamental a que o País se encontra obrigado.
De facto, as regiões autónomas ficam com todas as receitas fiscais nelas cobradas e nem sequer contribuem para as despesas gerais da República, que ficam a cargo exclusivamente dos contribuintes do Continente. Como se isso não bastasse, o orçamento do Estado transfere diretamente para o orçamento da Madeira avultadas verbas anuais a vários títulos, que no corrente ano somaram mais de 200 milhões de euros.
Ora, bastaria uma pequena parte dessa cornucópia orçamental anual do Continente (em que três regiões são mais pobres do que a Madeira!) para pagar integralmente vários hospitais na Madeira. Abusar da prodigalidade do Estado é que não faz sentido...

Ai a dívida!

É evidente que a atual escalada dos juros da dívida pública não é exclusiva de Portugal nem tem a ver com fatores endógenos, sendo devida ao choque provocado pela eleição de Trump nos Estados Unidos, pelo que é esperar que os mercados serenem com o passar do tempo. Mas a verdade é que, sendo uma subida que afeta todos os países, ela atinge especialmente os países mais vulneráveis, com dívida mais elevada e situação orçamental menos sólida, entre os quais avulta Portugal, que vê agravar sensivelmente o diferencial de juros para a Alemanha.
Para evitar esta suscetibilidade ao nervosismo dos mercados e reduzir o risco de um acidente mais grave, Portugal deveria estar apostado numa efetiva política de redução do endividamento, através de uma consolidação orçamental mais agressiva (saldo orçamental primário superior aos juros), em vez de estar a acrescentar todos os anos cada vez mais despesa pública permanente (à custa de uma elevada carga fiscal), o que em caso de retração económica pode provocar uma situação orçamental crítica.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Um pouco mais de rigor sff

Na sua edição impressa de hoje, o Diário de Notícias relata um alegado "ataque antissemita" a um restaurante no Porto, cujo dono e chef participou num encontro gastronómico em Israel.
Ora, o mais que se recolhe da notícia é que se tratou de uma ação de protesto anti-israelita em solidariedade com a causa palestina. Mas, sendo assim, é descabido caraterizar essa ação como "antissemita", ou seja, uma manifestação contra os judeus, com toda a carga de ódio histórico que isso suscita.
Uma coisa é o Estado de Israel e outra o povo judeu. Pode-se ser contra a política do primeiro quanto à ocupação da Palestina, sem ter nada contra o segundo, como sucede aliás com muitos judeus em Israel e fora dele. Israel não é imune à crítica e à condenação internacional pela violação do direito internacional, como qualquer outro país.
Um pouco de rigor, que se exige num jornal de referência, teria evitado a lamentável confusão.

Adenda
Na sua edição eletrónica o DN corrigiu a referida expressão "ataque antissemita" para "ataque radical". Mas a edição impressa já não se pode corrigir...

Adenda 2
Verifico que há outros outros jornais que, seguindo a usual propaganda oficial israelita nestas ocorrências, alinham com a conotação "antissemta", como, por exemplo, neste texto do Expresso. Lastimável!

A democratização das ostras

As taxas reduzidas do IVA deveriam ser excecionais e beneficiar somente os produtos e serviços essenciais para a generalidade das pessoas (como os medicamentos e alimentos básicos) ou que por razões especiais se quer incentivar (como os livros e serviços culturais). Não sabia que entre esses produtos estavam as ostras (embora nesta matéria tudo seja possível quando o IVA sobre os hotéis de luxo é de... 6% !).
Pelos vistos, a nova fronteira do Estado social consiste na democratização das ostras...

Ainda bem

A chancelerina Merkel vai candidatar-se a um quarto mandato à frente do Governo alemão (e tudo indica que vai ganhá-lo, dado não haver rival à altura no campo social-democrata). Depois de tantas mudanças políticas problemáticas (Brasil, Brexit, Trump), é bom saber que há coisas que não mudam...
Como muitos observadores têm notado, com a saída de Obama e a entrada em cena de Trump na Casa Branca, Merkel torna-se a mais lídima representante de uma visão liberal do mundo, o que é notável para a líder de um pais derrotado e destroçado na II Guerra Mundial e que nem sequer pertence ao Conselho de Segurança da ONU...

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Competição fiscal internacional

1. A decisão da Hungria de baixar para 9% o imposto sobre os lucros das empresas (o nosso IRC) constitui mais um passo na corrida internacional para dinamizar o investimento e sobretudo para atrair investimento direto estrangeiro, visto que, não sendo embora o único fator, o IRC é seguramente um do mais importantes na decisão das empresas transnacionais na escolha do destino dos seus investimentos.
Com essa descida, a Hungria, que já tinha uma taxa reduzida, torna-se o país da UE com menor taxa de IRC, bem abaixo dos 12,5% da Irlanda e de outros países do Leste europeu.

2. Esta corrida para a baixa do IRC (longe vão os tempos em que estava acima dos 30% !) revela um dos traços menos positivos da integração europeia, que cuidou de integrar as economias (mercado único, UEM), mas salvaguardou a competição fiscal entre os Estados-membros, permitindo estas medidas de verdadeiro dumping fiscal (o mesmo sucede quanto aos direitos sociais, incluindo os direitos dos trabalhadores).
A regra da unanimidade nas medidas fiscais da União tem impedido o estabelecimento de limites a esta competição fiscal (salvo no caso do IVA e dos impostos sobre as poupanças).

3. A decisão da Hungria pode levar outros países a fazer apostas semelhantes de redução do IRC, desencadeando uma nova vaga na referida corrida.
Com um taxa de IRC muito mais elevada (mais do dobro), Portugal está mal preparado para entrar nesta competição pelo investimento estrangeiro - de que necessita sobremaneira, dada a estagnação do investimento interno - , porque não pode prescindir dessa receita fiscal para alimentar a elevada despesa pública, que aliás continua a crescer.
A esta luz foi um erro a revogação do acordo entre o PS e o Governo anterior no sentido de uma descida gradual do IRC...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Façanha

Até por serem inesperados, são muito bons os dados sobre o crescimento económico no 3º trimestre. Embora tal resultado seja devido em boa parte à excelente época turística e menos à procura e ao investimento interno, e não podendo por isso dar-se por repetível na mesma dimensão, a verdade é que pela primeira vez em muito tempo a economia portuguesa apresenta-se a crescer bem acima da média da UE. Uma façanha!
Estes dados ajudam também a explicar a intrigante inconsistência, aqui assinalada, entre a firme baixa do desemprego e a débil retoma económica que até agora se registava.
Como é evidente, o maior crescimento económico vai também facilitar o cumprimento das metas orçamentais no corrente ano, mercê de maior receita fiscal e menor despesa social. Como aqui sempre se defendeu, a maior preocupação orçamental advinha da economia. Quando a economia cresce mais, tudo se torna menos difícil na frente orçamental. Mas é conveniente não relaxar os esforços nessa frente!